Conversa entre Rogério Duarte e Gilberto Gil
27 de outrubro de 1997

André Vallias - Conte um pouco de sua vida.

Rogério Duarte - Então vou dar um perfilzinho... porque eu tenho um problema que ainda espero recuperar, uma espécie de amnésia. Caetano consegue se lembrar muito e você também...

Gilberto Gil - Eu não...

R D - Caetano, eu fico com inveja. Como ele fala! (risos) . Então eu teria a possibilidade de contar tudo...

Agora engraçado, Caetano foi um Proust que não precisou daquele biscoitinho.

Proust também tinha essa amnésia, só que um dia ele estava num lugar, numa cidade e foi provar um chá, que era uma coisa da infância e de repente como uma cortina que se abre, a sua infância com tudo voltou. Eu ainda não fiz essa experiência do Proust, nem tampouco sou Caetano. Então vou contar minha trajetória, aos trancos e barrancos, a parte que eu me lembro e também de outros dados que eu sei por informação, embora não corresponda a uma lembrança vivenciada.

Eu nasci no dia 10 de abril de 1939, numa cidadezinha do interior da Bahia que era chamada de Areia, e depois passou a chamar Ubaíra. Meio por acaso... eu não sou de uma família rural. Meu avô, era juiz dessa cidade e tinha uma fazenda ó na verdade a sede da fazenda era quase dentro da cidade. Uma fazenda muito bonita. Nasci nessa cidade, não me lembro bem de nada da infância. Eu sei que eu fui muito doente na infância, tive aquelas doenças tropicais. Meu pai engenheiro, tinha vindo dos Estados Unidos, era um cientista, foi o cara que eletrificou todo o sudoeste da Bahia. Meu pai era a "Light" da época. A gente vivia de luz elétrica que as pessoas pagavam à meu pai.

G G - Era o "Fiat Lux" da região. (risos)

R D - E a sede era essa fazenda. Quando eu falo fazenda, era com todos os confortos, tinha carro. Meu pai, quando veio dos Estados Unidos, ó ele trouxe um carro de lá ó eu nem era nascido. Em 1938 eu te mostrei, ele já conhecia tudo de teoria dos quantas, de relatividade.
Minha família era culta. Meu tio Nestor Duarte, era um grande jurista, escritor, sociólogo ó hoje estão sendo reeditadas as obras dele. Então embora eu tenha nascido numa fazenda do interior, eu tenho uma família tradicional, meio erudita, tanto do lado paterno quanto materno. Só entrei na escola, no primário, com 9 anos de idade. Porque eu aprendi a ler e escrever, tudo isso fora da escola. Meu autodidatismo já é original. Quem me ensinou a ler foi meu avô materno, Clemente; caligrafia, essas coisas todas. E tinha uma biblioteca em casa...

Depois em Salvador a minha família contratou professora particular, então eu aprendi com professora particular. Entrei no colégio no segundo ano direto,... segundo ano primário... no colégio de Dona Anfrisia da Bahia, lá em Nazaré ó agora é Nossa Senhora Auxiliadora. Estudei primário no N. Sra. Auxiliadora, era aluno bom, de notas altas e fiz...  naquela época tinha exame de admissão ó assim como Gil estudou nos Maristas, eu fui pro Colégio Antônio Vieira, que ficava pertinho. O dele era dos padres maristas, o meu era dos padres jesuítas, o Colégio Antônio Vieira. Estudei... me lembro que tive uma nota muito alta no exame de admissão. Era considerado... eu e meus irmãos ó Ronaldo meu irmão... a gente tirava todas as medalhas. Mas era muito selvagem por ter sido educado na roça. Aí é que está essa contradição engraçada: ao mesmo tempo bicho do mato, de viver no meio dos bichos... as doenças que eu peguei foram todas doenças de endemias rurais como empaludismo, xistossomo. Então vivemos sempre essa contradição de coisas opostas, extremamente opostas. No Colégio Antônio Vieira só estudei até a segunda série ginasial...

....Havia uma fama de ateísmo na minha família... Tio Nestor, que era amigo de meu pai, livre pensador americano, e Anísio Teixeira que também é meu tio, juntamente com Nestor, eles representavam aqueles caras que desafiavam o clero. Então a gente era já meio anatematisado desde o colégio por causa disso. Eu particularmente não... minha mãe sempre foi muito religiosa e eu sempre fui muito religioso desde a infância. Então eu dava surtos de religiosidade total e de demonismo total. Me lembro que na primeira comunhão eu fiz um pacto com meus colegas, porque o dogma dizia que você tem que ficar em jejum, nós fomos à roça roubar fruta só pra não ficar em jejum. Já era uma atitude de rebeldia. Fazer todas aquelas coisas pra ficar excomungado... porque eu tinha medo... eu me lembro que eu estava sendo preparado pelo Padre Luciano, eu era fervoroso naquilo... quando um colega passou e gritou: "Padre Luciano vai comer a bunda de Rogério!!!"(risos). Então a única maneira de resguardar minha virilidade, foi exatamente fazendo esse pacto satânico... (risos)... então a consequência disso é que eu fui expulso... mas já muito autodidata, como eu entrei na escola no segundo ano sempre houve uma defasagem no meu caso, entre o ano que eu estava na escola e minha idade, meu nível cultural e intelectual que sempre me colocou numa posição muito gauche. Aí eu saí de lá, fui estudar no colégio Severino Vieira, em Nazaré, que era um colégio da Bahia... onde Caetano estudou... depois no Colégio Estadual da Bahia, o Central...  onde todo mundo estudou, o Glauber Rocha... Agora curioso é o seguinte, eu já na segunda série ginasial, por falta, eu fui reprovado umas três ou quatro vezes.Eu lia, mas gostava muito de jogar bola. Meu negócio era jogar bola, molecagens em geral, e ao mesmo tempo gostava de ler em casa. Eu exercia essa meia farsa de ser ao mesmo tempo moleque e ao mesmo tempo um cara interessado... Tem coisas dificilmente confessáveis na minha infância, episódios bastante traumáticos que eu tenho realmente dificuldade. A nível de escrever diário poderia ser, mas às vezes é difícil... episódios de violência sexual, cometidas não só por mim... era uma selvageria... eu não tive irmã... éramos cinco irmãos, "pândavas", a barra era pesada lá em casa (risos). Então por causa disso eu tive um grande trauma numa certa época da minha vida, entendeu, mais ou menos neste período que eu faltava muito, que eu perdi os anos... Mas minha mãe acompanhava muito, ela fez questão que eu então conseguisse, eu terminei o ginásio a duras penas, em sete anos, mas eu consegui terminar... Eu fui estudar o curso clássico no Instituto Normal da Bahia.

G G- Eu não sabia disso...

R D - É... todo mundo pensava que eu tinha ficado só na segunda série, eu fazia esse folclore... mas eu fui um pouquinho adiante.
Aconteceu uma coisa engraçada, eu não sei se é verdade ou é fantasia minha. No colégio, eu já tinha grandes problemas, eu não raciocinava igual aos outros, mas eu resolvia qualquer problema de matemática, por exemplo. Era um grande problema isso, porque eu resolvia de uma maneira minha, às vezes de cabeça, o professor achava que eu tinha pescado... meu pai matemático e tudo, botou um cara, Paulo Matta, irmão de João Eurico Matta, filho de Edgar Matta...

G G - Foi meu professor...

R D - ...pra me dar aulas de matemática em casa, particular. Ele chegou pra meu pai, depois de alguns meses e disse: "Esse cara aí eu parei com ele, não dá pé, ele me enrola, não dá... é diferente a maneira dele encarar o problema de matemática..." Então meio desistiu... E no primeiro ano do clássico, no Instituto Normal, aconteceu numa prova de matemática, eu ter respondido os três quesitos, sem ter feito as contas direito, um negócio que eu botava lá meio confusamente... e o professor me deu zero. Achou que eu tinha pescado os resultados. Eu pedi revisão de prova, não deram, aí eu fiquei... ah! não vou estudar mais não... esse negócio de colégio... eu vou estudar o que eu quero, não quero mais esse negócio de colégio...

G G - Currículos...

R D -  Porque não dá... os caras não me entendem...

G G - Impostos...

R D - Inclusive já no ginásio o professor Peixoto, que você deve ter conhecido, de inglês, escreveu uma carta pra meu pai, dizendo que eu seria uma pessoa de inteligência acima da média ó (não vejo nenhuma vaidade nisso) ó que eu não poderia ter uma instrução, ele dizia ó (e isso é relativo) ó igual aos outros. Talvez por alguma dificuldade minha, ele me obrigou a exercer demais essa função em detrimento de outras. Então começou essa coisa, em minha casa ninguém me criticava ó esse cara lê o dia inteiro, fica a noite em claro estudando e a gente vai discutir com ele e ele...

G G - E ele tá sabendo das coisas...

R D - Então o quê que a gente faz... começou aquele problema. Minha família se juntou e... eles achavam que eu seria uma pessoa que teria um futuro, não ia ser um cara sem escolaridade, sem instrução... o que fazer pra instruir o cara...

Eu já lia filósofos, existencialistas, nessa época... imagine que eu era professor de espanhol, porque nessa época tinha aula de espanhol no curso clássico do Central, e durante o período do ginásio eu ganhei dinheiro com isso. Eu e um amigo meu, que você deve ter conhecido, Afonso Mata Alves Dias, que era descendente de Castro Alves, ele dava aulas de grego e latim, e a gente, na pensão dele, montou um cursinho.
Eu me lembro que eu ganhei um livro, "Todos os Homens São Mortais" da Simone de Beauvoir, foi um cara que me deu de presente por aulas de espanhol que eu dava à ele. Eu falava espanhol normalmente, como se fosse uma segunda língua, tinha essa facilidade. Quando chegou mais ou menos nesse período assim eu diria... em 1959, quando eu ia fazer 20 anos, a coisa chegou a um ponto... Eu já tinha entrado na Universidade, sem vestibular, porque eu tinha estudado na Escola de Teatro da Universidade da Bahia e na Escola de Belas Artes, nos cursos livres, desenho e pintura. Já estudava violão clássico com Edir Cajueiro, comecei aos 17 anos,ele morava no Boulevar Suíço, ali pertinho lá de casa.
Então meu tio, que era um deputado federal, escritor famoso, tinha vários romances, Nestor Duarte... meu pai escreveu pra ele dizendo que tinha um filho, que era uma figura excepcional, que merecia uma chance de uma educação especial. E esse meu tio que tinha uma fazenda, era criador de cavalos de raça pura, em Feira de Santana, pai do Marcelo, avô do Nestorzinho que você conhece bem... Gil era conterrâneo dele... são várias gerações... teu pai, acho que conhecia o meu, meu pai viajando e o pai dele médico, do interior...

Coisa engraçada, só pra informação: Osmar... do trio elétrico, pai do Armandinho, Osmar Macedo, eu encontrei com ele, ficamos amigos por causa do Armandinho e ele ficou curioso... Quando eu falei que era filho de Dr. João, ele quase prestou reverências à mim, porque ele disse que aprendeu tudo dessa parte de mecânica com meu pai... Meu pai que era engenheiro eletricista, que trouxe todas as técnicas de eletricidade dos Estados Unidos, foi quem ensinou eletricidade a Osmar, que fez o trio elétrico. É a primeira vez que eu consigo fazer essa ponte, agora nessa pergunta...(risos) curioso... mas é um fato real, Osmar me disse isso.

Então quando meu tio Nestor chegou na Bahia eu fui passar um carnaval com ele, em vez de brincar o carnaval fui pra fazenda dele em Feira de Santana e conversávamos muito. Ele me botou o apelido de Kirkegard do rio Jiquiriçá, Jiquiriçá não... Jacuípe, do rio Jacuípe. O rio Jacuípe que passava ali na fazenda dele, "você é o Kirkegard do Jacuípe", mas gostou de mim e disse à meu pai que de fato eu tinha futuro no mundo da cultura. E pouco depois eu recebi uma carta do meu tio Nestor dizendo: "Gostei de você, você é louco o suficiente para eu lhe querer por perto. Gosto muito da companhia dos malucos (risos). E vou lhe dar uma colher de chá." Me arranjou uma bolsa de estudos do Ministério da Educação, eu fiquei com essa bolsa quatro anos. Durante essa bolsa eu estudei muitas coisas: na Escola de Belas Artes, Museu de Arte Moderna e Escolinha de Artes do Brasil.  Eu lembro que eu não sabia  que eu tinha capacidade pra fazer qualquer coisa. Uma das coisas que era difícil para mim era pintura... eu estudei pintura durante muito tempo... eu começava a pintar, pintar, pintar e tinha um momento que o quadro estava assim, as figuras, tudo direitinho mas eu não me conformava pintando, até que no final o quadro virava uma mancha cinzenta por igual (risos). Eu não conseguia de jeito nenhum... meu desejo chegava a uma coisa que eu não sabia o que era e virava tudo, no final, um borrão. Embora eu tivesse muita facilidade pra desenhar figuras.
Aí uma psicóloga chamada Noêmia Rego Varela, que trabalhava com Augusto Rodrigues no período que eu estudava na Escolinha de Arte, resolveu aplicar em mim uma bateria de testes, pra ver para o quê eu dava, pois eu próprio não sabia: eu escrevia, tocava violão e fazia qualquer negócio, estava na minha, muito mais falante e questionante do qualquer outra coisa. Ela me fez esse teste e chegou a conclusão que eu tinha uma especial facilidade no negócio de formas, gestalt. O teste era baseado na psicologia gestalt e ela achou que eu seria um designer, um grande designer. Aluísio Magalhães que era amigo dela, era pernambucano também, estava nos Estados Unidos... ela me disse:  "Quando Aluísio chegar vou lhe apresentar a ele, se der alguma coisa... acho que seu caminho é por aí." Aluísio chegou e de fato ela me apresentou, ele foi com a minha cara, me chamou pra trabalhar com ele, e virei graphic designer a partir desse estágio com ele. Nesse período eu entrei no negócio de política estudantil mas sem ser estudante, tinha carteira de estudante profissional, aliás quando eu fui preso foi uma das coisas que mais pesou a barra foi que eu era agitador... a partir de 62 eu já era da UNE, fui coordenador do setor de comunicação visual da UNE, fazia todos os cartazes... os da Bossa Nova, do show no Municipal, com a Nara, fui eu que fiz. Fiz todos os cartazes políticos da UNE entre 60 e 64, coisa que sumiu, desapareceu, ninguém sabe. Fiz nessa época uma capa de livro que eu gosto muito, que ninguém sabe, do Betinho, "O Cristianismo Hoje", que era uma linda capa de livro. Fiz a revista Movimento, essa eu tenho aí no portfolio, dá pra scanear... foi o primeiro design gráfico moderno em revista no Brasil, eu digo assim, meio até...  meio pretencioso... não foi o primeiro, mas foi primeiro numa faixa, na verdade tinha a revista Módulo, do Niemeyer, que era uma coisa de design moderno. Mas eu radicalizei...

G G - Você fazia parte de uma juventude que estava começando uma outra linha...

R D - É, exato... pelo menos aos caras que deram origem ao design brasileiro anterior a 68. Então eu adquiri essa profissão, na sequência disso, eu já ganhava dinheiro. Me lembro que eu era bolsista e recebia também uma mesada de minha mãe.
A história da morte da minha mãe é uma coisa muito estranha, eu não sei se cabe relatar aqui... mas eu me lembro que: quando eu me despedi da infância fiz de uma maneira, meio chantagem sentimental... eu era muito apegado a minha mãe, e escrevi uma carta para ela quando comecei a ganhar meu primeiro dinheiro e dizia que não precisava mais da mesada... escrevi uma carta terrível... Eu sempre tive capacidade de escrever coisas às vezes terríveis... meu casamento com Aneci (Aneci Rocha) terminou com uma carta que eu escrevi para ela, uma vez quando ela estava fazendo um filme. Tinha essa capacidade de destruir as coisas com textos. Escrevi uma carta então dizendo: tudo que você queria agora aconteceu, minha mãe, já estou adulto ó mas com uma ironia mórbida terrível ó já ganho dinheiro, já não preciso mais de mesada.

G G - Querendo dizer: você se livrou de mim finalmente... como você tanto quiz, como você tanto perseguiu... fazendo a chantagem.

R D - É... é... e acho que minha mãe muito apegada à mim, sentiu... eu não sei o que aconteceu... ela me escreveu depois uma carta que dizia ó isso é uma coisa muito estranha ó ela dizia que ficava muito feliz e então considerava que a missão dela no mundo já estava concluída, eu era o mais problemático de todos, os outros já estavam formados, encaminhados... e ela já tinha conversado com João, meu pai, ele estava comprando uma casa em Mata de São João, e me escreveu essa carta... dizendo: "eu já não quero ficar mais na cidade, eu não quero ficar, os barulhos da cidade hoje em dia já estão ficando insuportáveis pra mim." Eu li aquela carta e entrei em pânico, disse: minha mãe vai morrer. E fiquei desesperado. Fui à Anísio Teixeira e disse: "Dr. Anísio, eu quero uma passagem pra Bahia, eu quero ver minha mãe antes dela morrer". Ele disse: "Você está louco... não é nada disso... isso é fantasia". E me sentou na cadeira fez um questionário e eu bati firme que isso iria acontecer. Ele era um homem extraordinário, uma sensibilidade... todo mundo deve saber quem era...

G G - Anísio Teixeira, educador.

R D - O homem que fundou a UERJ no Rio, a Universidade de Brasília, com o mestre Darcy Ribeiro, o maior educador brasileiro, um dos maiores gênios que este país já teve. Eu tive essa felicidade... ele não era meu tio carnal, era casado com uma tia minha, mas tio. Ele então disse: "Está bom, já que você me convenceu, eu vou dar sua passagem." Eu saí desesperado da casa dele, ali no Flamengo, morava na rua Senador Vergueiro. Quando eu atravesso a Praia do Flamengo, na pressa de já comprar a passagem, eu vou atravessando a rua, e um caminhão me atropelou.

Eu me lembro que estava trabalhando com Aluísio, tinha o endereço dele, e me pegaram ó nem estava ligando pro atropelamento ó eu estava com uma calça de veludo... eu era meio vanguarda... e os caras lá no pronto socorro disseram: "esse cara com calça de veludo, deve ser viado." (risos) E me dando os pontos, sem anestesia e eu olhando pra cara deles, assim... dizendo: "está legal." (risos). Mas estava ótimo!!...
Eu sei que Aluísio soube e foi me pegar e fiquei na casa dele... mas desesperado... três ou quatro dias. No final peguei a passagem e cheguei na Bahia. E nessa noite eu vi minha mãe na velha casa que a gente morou a vida inteira em Salvador, porque embora eu tenha nascido em fazenda, desde pequenininho eu me criei em Salvador, fui logo para Salvador, a família toda era de Salvador... na Rua Nova do Paraíso, defronte da baía. Glauber morava na rua ao lado, na Rua da Mouraria. Glauber... a diferença minha de idade com Glauber é 15 dias, então essa relação muito grande entre mim e Glauber que já vem desse negócio todo da Bahia...

Então eu estive com ela... é um episódio interessantíssimo, que eu não consegui explicar direito... Eu chego de noite e digo: "Que bom, eu estou de novo em minha casa, minha mãe está aqui." Nessa noite eu saí com Jonga, meu irmão, e a gente tomou um pileque e nós dois começamos a chorar de repente. E eu disse pra ele: "você e ninguém mais percebeu o que está acontecendo com minha mãe, vocês estão loucos e cegos". Aí, aquela coisa de ressaca eu acordei meio de madrugada e fiquei na varanda, olhando lá fora e fui pro banheiro. É um costume que eu tinha, pegar uma revista em quadrinhos e ficar horas sentado no vaso, lendo. E de repente eu vejo, escuto uns sons... meu pai: "Jonga, Jonga..." Eu nem me movi, disse: consumatum est. Nem olhei. Foi nesse dia que minha mãe morreu. Logo eu chegando do Rio... então eu digo: minha vida... essas coisas não são muito comuns. Eu nunca poderia dizer isso a uma pessoa com um pensamento materialista, ortodoxo, diante de fatos como esse em que a minha vida constituiu.
Tem um outro fato, só pra encerrar essa coisa de trajetória... isso então ocorre em 61, na época da renúncia do Jânio. Eu venho pro Rio de Janeiro, mas já era um velho eu diria, depois de minha mãe ter morrido dessa maneira. Todo mundo pirou em minha casa. Meu pai entrou numa regressão esquisóide, meus irmãos... eu fazia a barba de Augusto... ninguém conseguia se mover. E eu dizia pra eles: "vocês estão equivocados, porque vocês, em primeiro lugar, não viram o que ia acontecer e em segundo lugar, estão pensando que ela morreu (risos). Todas as duas coisas estão erradas! (risos) "
Comecei a fazer experiências. Eu me lembro de minha tia Valmira, a irmã de minha mãe, que está viva até hoje nos Estados Unidos, tem 80 e tantos anos, uma velhinha bonita, maravilhosa, a irmã mais moça da minha mãe, lembro que na casa dela pra convencer Augusto de que eu hipnotizava minha tia, ela na sala da frente, eu na outra sala, fazia tudo e mandava ele perguntar à ela o que eu estava fazendo e ela dizia tudo que eu estava fazendo. Então eu dizia: "Acorda, esse negócio que você esta pensando mata as faixas da percepção dos sentidos, é totalmente ilusório!"

Em 61 volto pro Rio ó eu meio metafísico ó  meu primo Paulinho, que você conhece, psicanalista disse: "você só está com o negócio da metafísica, mas tem as causas sociais". Foi ele que me levou... disse "você tem que entrar na UNE, tem que participar da política estudantil". Daí eu fui virando marxista, acabei entrando no Partido Comunista... até que em 68, no mês de abril de 68, no mesmo ano em que no final houve o Ato Institucional e Gil e Caetano foram presos, a primeira prisão teria sido a minha, eu fui preso e torturado às últimas consequências, pelos militares, na vila militar aqui do Rio de Janeiro. E durante a prisão aconteceu já um segundo fato. É que realmente eu passei por sofrimentos muito grandes... Ronaldo, meu irmão, engenheiro, muito racional, me lembro que ele lia, ele procurava... ele traçou todo o mapa da vila militar, planos de fuga, e eu entrei em desespero e a única coisa que eu queria era a Bíblia, porque eu achava que ia morrer ali, pedi pra ler a Bíblia. Até que numa das noites... eu já fazia análise nessa época. Isso foi num período... eu sintetizei em poucas palavras... isso foi em 68, abril de 68. Já tinha havido Tropicalismo e tudo, né?

Antes eu fui professor no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro de 65 à 67, escrevi trabalhos, era uma pessoa assim de certo êxito. Eu me lembro quando o pessoal chegou, eu era rico, eu tinha dinheiro, bem diferente do que a minha vida veio a se tornar depois da prisão.  Eu era um artista de um certo sucesso. Saía.. e era assim considerado um papa na minha área. Brilhante, cheio de mulheres, de namoradas, aquela coisa... Eu me lembro exatamente quando eu fui preso, na véspera... a gente frequantava muito a casa do Vinícius de Moraes. Tinha um pôquer lá de fim de semana...  Até que quando eu fui preso... é aquilo que Caetano cita: "quando a gente é preso, é preso para sempre"... Mas teve uma noite que aconteceu um negócio meio fora do comum, eu comecei a entrar em desespero, entrei em desespero mas comecei a rezar. Rezar só o Padre Nosso... rezei repetidamente, dezenas e dezenas de vezes, repetindo, repetindo... até que eu saí de mim. Aí vi que eu estava três dias depois do tempo. Daí em diante eu soube tudo que ia acontecer dentro da prisão. Perdi o medo.

G G - Como Caetano...

R D - Caetano também teve uma experiência assim??

G G - Oxente!!! A gente vai ler lá no livro...

R D - Ah!!! Então eu tinha que publicar o meu livro... a gente devia escrever sobre essa experiência...

G G - Não era rezando mas era por um outro código. Ele chegou a um sistema de premonição que sabia o que iria acontecer...

R D - ... tudo, eu dizia: "Ronaldo, rapaz, sabe o que vai acontecer..." e dizia tudo, todos os detalhes, até... porque eles fizeram umas coisas com a gente... passeavam numa Kombi, dias inteiros e diziam: "Vocês já estão no Acre." Mas eram tantas horas de viagem. Eu me lembro uma vez apareceu um cheiro, a gente vedado, Ronaldo disse assim: "alguém peidou!". Eu digo: "Não! Isso aí é a Refinaria de Catuaba, era o cheiro da Refinaria" (risos). E Ronaldo que me mantinha... porque eu vou lhe dizer, uma outra coisa que eu gostaria de deixar... eu estou ficando velho, não tenho que esconder. Eu tinha uma namorada, você deve conhecer, que dava aula de ioga na casa da Dedé, uma mulher lindíssima, maravilhosa, foi presa comigo. Era Ruth Casoy, irmã da Inês, não sei se você conheceu ela. Uma mulher maravilhosa... e... o quê que a Ruth me bateu... Ah! Sim!... Quase reprimo, porque é difícil dizer isso, naquela época foi terrível... E numa das sessões de tortura eu tive vontade de delatar todos os meus companheiros, amigos e principalmente Ruth, que era agitadora, que foi numa passeata com ela que eu fui preso.  Eu cheguei a gritar... "Eu quero"... Mas quando eu ia fazer isso, Ronaldo que estava ao meu lado, meu irmão sacou intimamente meu momento psicológico e disse: "sabe o que está acontecendo com você Rogério, você está pensando que esses caras são bonzinhos, e que você fazendo alguma coisa desse tipo vai aplacar a ira do inimigo, não é um ato inteligente." Ele não disse com essas palavras mas ele disse: "você tem que se trancar dentro de você próprio, feche o bico, se segure, entendeu..." Aí eu despertei, eu digo: "tudo bem, eu entendi o lance"... Foi uma coisa heróica. Tanto assim que depois eu tive... negócio de irmão... eu tive até a possibilidade, no momento em que ele estava sendo interrogado... um interrogatório muito terrível... teve um momento meu, talvez até inveja... veja só essas loucuras que acontecem durante a tortura.. "Porque vocês interrogam ele?"... aí eu chamei os interrogadores e disse: "Espera aí! Vocês estão pensando que ele me orientou para a passeata, que ele, um engenheiro... (ele já tinha sido preso antes, na Petrobrás) venham conversar comigo."  Aí eu dei um banho nos caras... eles perguntavam quais as revistas que eu lia...eu dizia revistas alemãs, francesas... tipo... "Tipographic", "Deutsche Zeitung" e não sei o que lá, e comecei a pirar a cabeça dos caras ali... (risos).

E Ronaldo, que eu vi que tinha ficado meio branco, disse: "Poxa, naquela hora ali você também..." e eu me lembro de uma coisa que eu tenho a maior vergonha de ter feito. Eu escrevi um livro sobre isso... um livro meio caótico, esse livro ainda existe... eu destrui tudo o que eu tinha escrito, como Caetano registra no livro dele, ele conhecia os romances que eu escrevi e tudo mais, mas esse livro eu reservei está lá em Brasília junto com os meus outros papéis e tem relatos muito interessantes, inclusive uma análise do que aconteceu. Me lembro quando eles me perguntavam sobre Che Guevara ó Che Guevara era um Deus para mim ó eu não queria esculhambar Che Guevara, então eu tinha que sair pela tangente. Eles perguntavam: "o que você acha do Che Guevara?" e eu disse: "Che Guevara é um louco, que era um louco varrido, o cara fazer um negócio daquele". Era uma maneira meio de enrolar, mas depois eu percebi que o objetivo da tortura teria sido exatamente uma lavagem celebral de maneira que eu negasse, fosse levado a negar tudo o que eu achava, e aquilo deu uma ruptura na minha mente muito grave... Depois eu fui internado... durante 69 e 71, minha vida foi muito difícil mesmo, eu fiquei no Pinel, Pavilhão Psiquiátrico do Engenho de Dentro, de macacão, cabeça raspada, foi um período que as pessoas não sabem, só pensam que foi uma semana, mas a coisa resultou nisso. Então para recuperar desse processo, porque minha vida mudou completamente, inclusive eu que era muito mais extrovertido, hoje estou um pouco mais de novo, me sinto mais curado com as yogas todas da vida, mas na época,... me lembro que Caetano,  por exemplo, que dizia que eu era um cara brilhante, como ele disse no livro, ele diz: "acabaram com o cara".
Lembro quando vocês voltaram de Londres eu estava internado em São Paulo e Augusto, meu irmão, procurou Caetano... eu tinha recebido alta, porque todos diziam que esse cara não tem nada, o problema é uma depressão... Augusto me disse "Caetano chegou na Bahia, você não quer encontrar com ele?íí

Eu liguei... me lembro quando ele chegou... a primeira coisa que eu falei para Caetano, naquela casa de Amaralina, eu disse: "Caetano não espere o mesmo papo de antes, aquilo acabou..." É difícil às vezes falar isso....(pausa)

Foi um período difícil, senti uma lentidão, uma dificuldade de acompanhar, de entender as coisas... atordoado. Eu me lembro que teve um desfecho maravilhoso, que eu fui impregnado... fiz tratamentos clínicos que foram pesados.

Foi Glauber Rocha o cara que me salvou, nesse período Glauber chega na Bahia e a gente fez uma viagem a Itaparica. Parece altamente subversivo um Hare Krishna dizer isso, mas eu fui curado pelo L.S.D.. Me lembro  que Glauber em Itaparica pegou quilos de um ácido em pó e disse "tome isso"... a gente tomou e aí comecei a dar risadas e a brincar com Glauber, a gente morria de rir um para o outro, dizia "quem diria, daqui eu iria dar tantas gargalhadas de novo tão gostosas", como se eu tivesse vomitado todo aquele sofrimento que eles quizeram empurrar em mim, como se fosse minha natureza e que não era aquela. No meu livro eu analiso isso, interessante a reflexão que o livro me dá, eu dizia assim, quando eu começo a perder o medo eu digo... eles estão tristes querem que eu fique triste, eles estão com medo querem que eu fique com medo... mas eu não tenho nada, não tenho tristeza, nem medo, nem nada...

Percebi na Bíblia, eu tinha lido um negócio de Jeremias que diz: "Passareis aflições durante 10 dias, não tremas diante deles que suas vozes são falsas". Eu me firmei naquilo, daí em diante ó Gil sabe ó nós ficamos depois um período naquela casa redonda fazendo macrobiótica e todo um processo nosso místico, eu como Gil tivemos anos de troca de experiências na busca de uma outra verdade. Quando Gil foi preso, me lembro quando fui te visitar, foi uma experiência, que nessa prisão primeira, talvez pelo fato de você ser o Dr. Gil e tocar e tudo mais, talvez não tenha sido tão... deve ter sido... mas eu tenho a impressão que a sua prisão por porte de maconha lhe levou um aprofundamento radical.
Você sabe que eu comparo você naquela história, a uma história engraçada: Sócrates, a prisão de Sócrates. Porque eu me lembro quando Sócrates foi preso no processo que resultou na condenação à morte, Sócrates poderia ter fugido da Grécia, teve amigos que deram chance a ele. Mas ele disse:  "como eu poderia, se é a partir das minhas teorias que o conceito de Estado Grego se faz.  Eu não posso negar esse mesmo Estado que eu ajudei a criar."  E você também como cidadão assumiu a apólice. Você aceitou a condenação, aceitou inclusive a internação como uma atitude lúcida, você não se rebelou de nada, porque era uma questão de coerência, senão você estava negando a si próprio. Você também é um cidadão, era um dos artífices daquela coisa toda que acabara por lhe levar à prisão. Aquilo eu refleti muito... eu me lembro quando... eu não sei porque isso me veio à lembrança agora... mas é um fato... Eu não sei se porque você falou em trajetória que eu fui levado ao invés de falar do currículo intelectual...

G G - Falou também...

R D - Mas esses são fatos importantes. Daí para cá Gil sabe - depois Smetak. Eu fui para São Lourenço como iniciado  em teosofia nesse templo de São Lourenço, daí minha busca foi mesmo de Krishna, eu poderia dizer que eu só queria encontrar, e não era Deus não, era Krishna mesmo. Já depois da prisão quando eu fui para Cachoeira, Roberto Pinho tinha na Biblioteca do Agostinho da Silva um Bhagavad-gita, a primeira vez que eu li um Bhagavad-gita, uma edição em versos, portuguesa, e quando li, no capítulo do Gita eu disse: "isso é o que quero, esse é o pensamento que me responde, esse é o tipo de... ou seja filosofia"... se eu tivesse lido Sócrates na época talvez eu fosse achar a mesma coisa... a coisa que remete-se a eternidade do Eu, a existência  de Deus, daí então todo meu itinerário... Eu começo cada vez mais com idas e vindas, em casamentos, vários acidentes de percurso, mas o meu itinerário passa a ser mais nesse sentido.
Daí entro, digamos na década de 70, aquela contracultura, eu me tornei um músico de rock. Engraçado que muitas letras... me lembro que tinha uma delas que Caetano dizia que era o hino da década de 70, com o Sérgio Bandeira que morreu. Eu não sei se você chegou a conhecer ,lembra de Sérgio Bandeira?

G G - Lembro... claro...

R D –  "Vou para casa, até logo turma hoje foi um dia violento embora não tivesse acontecido nada..."

Era aqueles rocks bem metafísicos, me lembro de um que dizia:

"O espírito espera a volta da matéria mas ela saracoteia ao redor da teia"

Já eram intuições, era um negócio engraçado... o Sérgio morreu pouco depois disso... mas eu gosto muito das músicas que eu fiz nessa época...

"O viúvo chora desrespeitando a nora diluída Laura que nenhum amor restaura"

"Você toca mau e me dá dor de dentes vou lhe dar é pau daqui para frente" (risos)

Coisas muito interessantes, é uma parte de mim mesmo que eu gostaria que fosse executada. Mas é bom que esse diálogo seja com Gil, ele que paradoxalmente voou, um dos artistas mais famosos do Brasil na posição de entrevistador e eu de entrevistado. Acho curioso que isso me desreprime da vontade de eu assumir coisas, por exemplo, que eu teria sido um exemplo típico no Brasil do que chamaria  "o artista underground", o padrão por excelência,  que trabalhou sempre na contracultura no contato sempre muito próximo com todos eles e fazendo um outro trabalho.

G G - Seminal... muito seminal.

Rogério Duarte - Exatamente, visceral, seminal. E ao mesmo tempo eu fazendo esse trabalho de complementação, que era essa coisa nos anos 70, esse trabalho todo... Me lembro que sempre estive ligado nesse período a tudo que surgia, que fosse afirmação de uma coisa nova, que desse a continuidade. Os Novos Baianos foram começar em minha casa, lá na Bahia. Aí vinha Hélio Oiticica..., quase todo um processo... até que chegamos mais ou menos em 78, de fato, depois de umas experiências terríveis que eu tive na Bahia, juntamente com o Wally (Salomão)... mas eu não vou nem dar detalhes... acabei me metendo numa briga contra uns capoeristas lá em Itapoã, meu braço quebrou, tive que ir para o hospital... aí eu saquei que... eu digo... eu queria matar o cara... fui para Itapoã, e tinha um templo Hare Krishna em Itapoã ... eu encontrei o templo e os caras me levam, me lembro a minha emoção... eu li os livros, quando eu li comecei a chorar com o texto... disse: "vou ficar aqui, eu não quero matar ninguém". Aí eu me tornei Hare Krishna. Logo depois eu fui para São Paulo levado por Bhavarnad Suhan, que já me preparou para iniciação, comecei o período Hare Krishna...

Já estava casado nesse período. Volto para Bahia, mas minha mulher era totalmente anti Hare Krishna, como até hoje é um pouco, hoje menos, porque eu também como Hare Krishna ó eu era muito fanático radical ó hoje eu sou um tipo de Hare Krishna bem diferente, mais "palatável", melhor, mas na época, devido a uma postura de radicalidade.

Daí chegamos a 80, eu trabalhava em São Paulo, com Iso Suhan, tudo era muito bom, mas quando eu fui a Bahia, de volta à Bahia, não consigo me dar bem com alguns negócios lá. Começa haver uma pane política dentro do movimento, eu venho sempre à esquerda, me afasto do movimento e vou para o interior da Bahia. Fiquei muito anos como fazendeiro, uma fazenda que eu tinha herdado, até que o negócio chegou à seca, sem nenhuma condição de sobrevivência, eu desesperado, com aquela fazenda grande, tento vender a fazenda e me levam em Jequié, as pessoas vão comprar... aí é engraçado, coincidência... estava passando em Jequié "Show de Gilberto Gil". Eu consegui furar e penetrei pelo hotel, cheguei ao quarto de Gil. Gil não me via há muito tempo, ele já estava casado com a Flora... desde que ele estava casado com Flora eu nunca tinha visto ele, eu me lembro que você disse: "cuidado que ela está dormindo aqui" e fui entrando... e contei mais ou menos algumas coisas, alguns passatempos e nós saímos juntos...

G G - Fomos para fazenda.

R D -  Não,... fomos para Feira de Santana... e passando eu mostrei a fazenda do ônibus, com toda equipe de Gil...

G G - Voltamos para Salvador.

R D - Gil em um determinado momento, ele vinha no banco da frente do ônibus... eu atrás com os músicos, eu sempre me dei com Gil e com todos os músicos, ele levanta e senta ao meu lado e propõe entrar ó eu estava em um sufoco financeiro total e absoluto ó ele disse: "eu compro metade da fazenda"... não precisa nem entrar em detalhes. Depois Gil na Europa eu vendi, sem autorização de Gil... aliás tem um detalhe que eu queria lhe explicar... esse recibo que eu fiz com a Dedé, lá nesse cartório, bota você como você como dono de cinquenta por cento de tudo o que eu tinha, sem separar aquela fazenda de cima ou a de baixo...

G G - Eu sei...

R D - É você lembra, eu acho que te falei isso...

G G - Falou...

R D - E, tem uma coisa que eu gostaria de esclarecer com você. Havia uma matemática, que ficou difícil de eu explicar, porque eu vendi, eu me lembro que eu vendi  bem a fazenda... eu vendi a fazenda por 30 milhões, que era muito dinheiro... porque a do meu irmão foi vendida por 15, mas eu investi, botei luz elétrica, fiz teste de água. Os Hare Krishna tinham me indicado, e nessa ocasião eu resolvi fazer o teste, não dava para fazer nada de hortigranjeiro, era uma água totalmente salobra, a fazenda realmente não valia a pena a não ser que eu tivesse querendo criar gado de engorda, como não era o objetivo, eu resolvi vender a fazenda sem sequer lhe consultar... lembro que comprei as outras fazendas e eu dizia a você que eu era dono de 2/3 e você de 1/3 e eu queria tentar me lembrar qual era o raciocínio financeiro... eu disse bom... eu vendi a fazenda, nós eramos donos da metade da fazenda... mas eu botei a minha parte e botei todo o dinheiro da venda dessas fazendas, isso estava... eu me lembro...

G G - Certo.

R D - Eu me lembro que cheguei a fazer um balanço...

G G - É isso mesmo...

Segunda Parte

R D - E em 87 eu vou para Bahia, meu primo na chapa com Mario Kertz como vice-prefeito, Roberto Pinho, uma turma antiga de amigos me chamaram para entrar na política... Gil vai para Bahia, vira político, se candidata a vereador... Me lembro com muito orgulho, esta aí nesse negócio o adesivo da Gege, ali está a marca da Gege. Gil foi uma das pessoas, digamos assim, de cliente, que eu fiz mais, muito mais do que Caetano, capa de disco, foram várias...

G G - Disco ao vivo.

R D - Exato, ...mesmo de cartazes, lembra daquele de "Verão na praia", que era uma folha caindo... aquilo se perdeu tudo. Outra coisa que eu gosto muito de ter feito, que eu usei a "golden section", foi aquela camisa que você fez da tour, encomendado pela Flora...

G G - Para a Europa.

R D - Você ainda tem aquela camisa? Eu gostaria muito que você scaneasse e botasse no visual dessa home page.

G G - Flora deve ter.

R D - Eu acho que ela tem... Então essa experiência, foi em 87, foi mais ou menos até 88, 89, não é? Eu saí logo antes...

G G - Eu tive o mandato até 92, você até 90.

R D - Eu briguei com Roberto Pinho. Roberto Pinho era meu amigo desde a infância, de vez em quando a gente tinha uns desentendimentos, era questão de grana, porque eu ganhava um salário baixo e tinha feito um grande projeto... se não me pagarem pelo projeto... eu estava com família grande... Eu saio debaixo... Saí e fiquei... Invadi um terreno lá na Bahia, meio dado, passava a rede de alta tensão e o governador da Bahia, Valdir Pires, mandou tirar a rede, a prefeitura aceitou e eu consegui registrar o terreno, que é aquele lá, que hoje está tudo legalizado, já tenho o uso capeão, já tem tempos isso, 15 anos... Daí então chega 90, um belo dia, eu comecei a trabalhar com uma figura extraordinária, um espírita Daniel Boising, grande jogador de xadrez, matemático e professor da Universidade da Bahia, ele era um grande talento de xadrez no Brasil, uma espécie de Gasparov brasileiro na época... E eu na época, me apaixonei pelo jogo de xadrez, comecei a estudar profundamente xadrez e um dia nós nos conhecemos, ele gostou de mim e eu dele, ele disse: "você é um cara que tem inteligência, já vi que você é diferente desse pessoal..." e foi no lugar me conhecer de perto. Arranjou para eu ensinar na Universidade da Bahia, dei um curso de extensão e ele disse: "vou virar seu empresário, que você está tão para baixo que ninguém vai dar o valor que você tem, mas eu vou mantê-lo". Abrimos um escritório, ele comprou um telefone, e disse: "eu comprei um lote aqui ao lado, e vou botar esse telefone, mas enquanto eu não boto o telefone.. vou deixar na sua guarita, aqui" e botou o telefone... e um belo dia eu recebo um telefonema de Brasília me convidando para ser o Diretor do Museu de Arte de Brasília. Foi uma armação que Ana Maria Magalhães tinha feito em Brasília, juntamente com Fernando Lemos. Fui para a Universidade de Brasília, fiquei durante o mandato, fui o diretor do museu, e me chamaram para professor da Universidade de Brasília, embora sem titulação, o resto...

G G - Você pleiteiou o notório saber...

R D - Mais uma vez entra Gilberto Gil na jogada... Gil, você lembra quando eu fiz seu horóscopo, há muitos anos atrás...

G G - Disse que eu teria problemas nas pernas.

R D - Você nunca teve?

G G - Está começando.

R D - Dava aquilo no horóscopo, eu era um astrólogo meio incipienteÖ

G G - Parte do esqueleto mais afetada pela chegada da idade.

R D - Ah!... Está certo... Foram os dois únicos horóscopos que eu fiz mais rigorosamente na época, o de Caetano e o de Gil. Na ocasião eu fiz uma pesquisa cabalística do nome Gil: Gil quer dizer amigo, companheiro... E eu dizia, seu dom Gil é exatamente o da amizade, e tive sempre a sensação que Gil em momentos da minha vida ele magicamente aparecia, engraçado... Quando surgiu a questão do notório saber, da Universidade, aquele processo se arrastando anos, quando eu pensei que tudo estava praticamente ganho, parecer favorável, este empacou na reta final, os caras disseram que não reconheciam que eu tinha direito, que tinha que ser a universidade, e não passou com a legislação, aí eu liguei para Gil. Gil estava indo fazer o debate "Quanta", foi agora recente em Brasília, foi o que, o ano passado?

G G - Esse ano! (1997)

R D - Esse ano ainda, veja já estamos em outubro. Então a trajetória já chegou ao presente que é o aqui e agora. Gil trabalhando, no governo com alto cargo de conselheiro.
É um cargo, embora... não é um emprego, é um cargo não remunerado... eu até tive várias funções não remuneradas durante esse período, eu fui do CESU, Conselho Especialista do Ensino Superior - do MEC. Eu fiz o reconhecimento da Universidade Católica do Paraná, da área de desenho industrial com parecer meu e criei a primeira comissão especialista do MEC para desenho industrial... e Gil, a convite me parece da Dona Ruth, trabalha com a Comunidade Solidária, onde tem uma participação a nível ministerial, uma espécie de ministro sem pasta.

G G - Um conselheiro do Governo na área social.

R D - E altamente poderoso... politicamente em virtude da função praticamente ministerial, quem te conhece como artista não sabe dessa tua veia política contínua paralelamente com a de músico. Foi fantástico que eu liguei para Gil: "Gil, está acontecendo um negócio"...  - "Eu vou falar com o ministro"... Aí veio o conselho, diz que teria que ser... eu conhecia a legislação e cabia ao ministro reexaminar o parecer do conselho. Falei com o Gil, Gil esteve lá... Não era uma questão de pistolão, era um direito líquido, o ministro jamais teria me dado se todo o conselho jurídico do MEC não tivesse dito a ele que eu tinha total direito, mas realmente foi a interferência do Gil nesse momento, que levou ele...

G G - Levei ao ministro sobre o problema...

R D - Sobre o problema. Ele analisou com rigor total, pediu... ele não deu nada... ele mandou de novo para o MEC com o parecer jurídico, o MEC analisou de novo e me deu o título.

G G - Doutor finalmente...

(risos)

R D - Esse doutor finalmente... não adianta... karma é uma coisa... só que agora eu fiz concurso para professor adjunto, tirei as notas mais altas, mais do que o meu concorrente, mas não aceitaram os pontos de titulação e recentemente o camarada que é o diretor, ou o vice-diretor, chega para mim, para dizer: "eu estive observando o negócio do Notório Saber, o que vale é a graduação..." eu digo, será que eu vou ter que começar tudo de novo...

(risos)

André Vallias - Como é a história da tradução, do disco...

R D - Boa pergunta, isso dá solidez ao relato... Na UNB, antes desse processo, eu era professor títular visitante, imagine, o mais alto posto da carreira universitária me foi concedido... mas só que era um contrato limitado com uma promessa que abriria um concurso para me fazer de titular, ou seja, já tinha dado o Notório Saber pela comissão que me aceitou como titular na ocasião. Mas os amigos todos, que eram professores, tinham pedido aposentadoria, daí que terminou o meu contrato e um mês antes me avisam.  E eu que ganhava muito bem, para os meus padrões era um dos salários mais altos como professor titular, e de repente eu digo, "estou na rua", como até hoje, estou sem salário desde esse dia até hoje, sobrevivendo. Houve outros projetos maravilhosos... teve um que foi da Presidência da República que foi a reformulação visual da TVE, que eu ganhei um dinheiro, mas eu fiquei, durante esse período numa situação terrível. Aí abriram concurso de titular para um posto mais baixo da carreira e fizeram questão, colocaram no editorial que eu não poderia, que teria que ter o diploma mesmo... mas como é que eu faço... agora que me aborreceu é que vou entrar na universidade de qualquer maneira.
Me inscrevi no concurso, numa perseguição, mas chamaram à banca duas pessoas, as maiores autoridades do país e um cara com quem eu já tinha tido a desavença e não queria mesmo. Não podia me inscrever, mas eu paguei a taxa e com um amigo meu, um advogado, entrei com um mandato de segurança, foi um dos mandatos de segurança mais rápidos da história do país, em menos de uma hora eu obtive a liminar me dando o direito de me inscrever. Me inscrevi, tive as notas mais altas do negócio, e não tinha jeito, fui aprovado, a vaga estava lá, é minha, mas nada de me contratar... Me mandaram perguntar "o senhor ganhou, agora chegue aqui para se contratar, mas chegue aqui com o diploma". Eu digo, que piada é essa... eu vou lá: "eu não tenho diploma, eu sou notório saber!". "O senhor comprove", "Eu já comprovei, eu era professor titular aqui, quer mais comprovação do que isso..." Não adianta, eu tinha entrado paralelamente com processo, só que o MEC ao invés de me dar mandou para a Universidade de Brasília e aí ficou anos, e nada de me dar. Então nesse processo eu entrei numa percepção também, mais uma vez, tipo essas crises que eu tive na prisão e tudo, de que eu estava em uma canoa furada, aquele negócio da universidade e tudo... Eu digo: "Pô, (eu entrei num estado assim) meu Deus como é que eu vou viver?"... Eu tinha costumes, eu ia jogar sinuca toda noite... professor titular... e de repente me vi... com um passado todo pomposo e tudo... Embora desempregado e tudo mais, o MEC de repente me manda um telegrama que que eu fosse ser expert para analisar uma Universidade no Paraná, era um cargo sem remuneração... bom, entra para o meu currículo... e também uma missão, vou lá e fiz. Rukmini Padprabhu, um grande amigo estava no Paraná, me esperou e me leva para a casa dele, eu fiquei impressionado com a beleza da família do Rukmini, os filhos, a mulher, a casa que ele morava, e tudo depois tudo se desmoronou rapidinho, é engraçado. Mas, eu chego na casa dele e ele lembrou que eu tinha começado a traduzir o Gita em versos, já em 78. Eu tinha feito o segundo capítulo que é o resumo do Gita, consegui traduzir todinho, o segundo capítulo... uma tradução com alguns defeitos e tudo mais... batendo um papo ele diz: "você tinha que retomar aquele negócio, porque não termina?". E foi uma coisa engraçada...  Eu vi ele cantando a "Japa" e ele sendo sempre meu amigo eu disse: "poxa, eu tinha tanta vontade de voltar a cantar a Japa" e ele disse: "porque não canta" eu disse "eu não tenho japa"... ele me deu uma japa... "então tome uma aqui" na mesma hora comecei a cantar sem nenhuma preocupação de estar entrando no movimento, ou não... era uma coisa íntima... Aí, voltei para Brasília e já com essa tarefa de continuar a traduzir o Gita, de continuar o trabalho de tradução. Me dediquei com afinco durante um ano, trabalhando o dia inteiro, sentado no computador, eu tinha computador, e o Rukmini sempre telefonando "como é que vai?"... Nessa época tinha que fazer os comentários, acabei tirando os comentários por isso que é sagrada a participação dele no disco com a música... se eu negasse isso eu teria que ser ingrato... mas na introdução eu até cheguei a mencionar que foi o desgosto da Universidade, depois eu tirei, e disse que houve alguns desgosto e me senti como um Arjune. Só Krishna naquele momento poderia me devolver a alegria de viver. Então eu entrei numa outra, eu vi que estava com um pensamento muito material... que se eu não tivesse emprego eu ia morrer de fome...
Krishna diz exatamente, "dependa só de mim, Krishna, e tudo e qualquer coisa eu lhe proverei"... entrei de fé, comecei a cantar "Japa" e a traduzir e de fato eu estou... com grandes difiduldades financeiras e tudo mais, mas estou sobrevivendo.
Caetano tinha me apresentado, na Bahia, para Luis Schwarcz. Exatamente aí entrou o livro do Caetano, Luis Schwarcz vendo o capítulo que ele fala de mim, quem é esse cara, quero conhecer, já que Caetano fala tão bem dele... ele quiz me conhecer e eu tinha lançado uma revista em Brasília nessa ocasião, de xadrez... mas eu traduzi uns sonetos do Borges sobre xadrez, belíssimos, falando dos vedras e tudo mais, e o cara gostou das traduções "puxa, você traduz poesias?" eu digo "traduzo",  "então quando eu tiver o Borges, eu vou lhe dar para você traduzir, só essa dificuldade de fazer o contrato de comprar os direitos dele"... eu disse para ele "se eu tiver algum texto eu posso lhe procurar?" "Pode". Quando eu tinha mais ou menos alguma coisa eu levei, estive em São Paulo com Rukmini também, Carlinhos (Rennó) falou "vamos lá falar com Schwarcz". Ele estava fazendo o livro do Gil "Todas as Letras". Mostrei a Schwarcz e esse disse: "manda o original quando estiver pronto, se a gente gostar, publica, em princípio tudo bem". Eu mandei pau, terminei à facão o negócio, inclusive na primeira edição foi incrível a participação de Caetano. Eu cheguei na Bahia com o texto já pronto mas a métrica não estava muito boa, na verdade... Caetano foi logo percebendo os problemas de métrica, aí também eu digo... tudo bem ele apontou os erros, ele é o mestre, mas não vou deixar ele fazer os versos, voltei para Brasília, rapidamente concertei, pelo menos a parte de decassílabos, voltei... Carlos Rennó teve uma participação maravilhosa na parte de decassílabos, porque decassílabos é um verso difícil, a parte de acentuação, ele deu uma mão no final, ele ajudou a melhorar alguns.
Então eu tive esse apoio muito bom de Caetano Veloso e Carlos Rennó nesse trabalho... daí Carlos Rennó teve a idéia de "aquelas letras são bonitas demais, vamos fazer um disco"... "mas Carlinhos, já me deu tanto trabalho para fazer o livro, agora um disco..." Tanto assim que não está lançado por causa disso, porque já está pronto há bastante tempo, mais ou menos foi isso.

G G - E aí tem os seus amigos...

R D - Tem Gil...

G G - Cada um de nós, alguns são cantores... a Gal com fundo musicado por Roberto Mendes...

R D - A Elba canta do Geraldo Azevedo, Geraldo Azevedo também fez duas, Chico César, toda essa turma aí. A princípio a gente chamou mais gente...

G G - Arnaldo Antunes, Moreno...

R D - Arnaldo Antunes...

G G - Moreno Veloso...

R D - Moreno... É uma turma grande, são 19 músicas... E que agora afinal está pronto, está sendo prensado, espero que saia até o fim do ano. E o queria dizer é o seguinte, houve uma coincidência desse gancho, saiu uma matéria..

G G - Lá em Brasília...

R D - Lá em Brasília dizendo que Bhagavad-gita é um livro sobre a tropicália... (risos)
De certa maneira é... então para encerrar eu queria fazer, todo mundo me perguntou... eu sempre achei Krishna a coisa mais tropicalista possível (risos)
E é mesmo, curioso. Primeiro o lado de ser moreno, a Índia, aquela rejeição da gente do etnocentrismo euro-americano... E também entra o luxo do colorido da Índia, que era um pouco a nossa estética tropicalista. O Caetano sempre foi meio racionalista, quando a gente entrava muito smetakeado... agora Caetano era engraçado, ele rejeitava mas depois quem entrava mais de sola era ele próprio. A gente fazia aquele folclore todo, de Smetak... mas na hora de produzir o disco de Smetak foi Caetano que produziu o disco. (risos)
Eu acho engraçado, mas eu me lembro que nessa época quando saiu, foram dois discos, um do Caetano, que tem a capa branca, que a capa é a assinatura de Caetano e tem, o do Gil, que é um desenho meu... um poema com um desenho... que ele me disse, "é isso que vai ser a capa"...

G G - No exílio, não é?

R D - Exatamente... na saída do exílio... que Caetano recusou o nosso misticismo, que a gente estava indo para São Lourenço... já o plano... já muito papo ... e muito levado inclusive pelo misticismo de Roberto Pinho, aquele negócio todo...

G G - Pinho, Smetak...

R D - Smetak... todo aquele pacote místico... que o Caetano nessa marcha para o ocidente já deixou aquilo de lado, não lhe parecia muito sério, tanto assim que eu fiz um projeto de capa de disco para ele que ele rejeitou. Era quase igual, era todo branco mas no meio ao invés da assinatura dele tinha uma faixazinha com várias cores, assim como se fosse um arco-íris, aliás eu tenho duas capas de disco de Caetano que não emplacaram: essa e uma outra que eu acho extraordinária, também do exílio, essa encomendada por ele mesmo, que era um projeto gigantesco, um álbum duplo que eu fiz uma foto que era só cabelo de Caetano, a capa toda era só cabelo, era um negócio muito bonito, uma foto que a gente fez... na parte de traz, correspondendo a área do cabelo, a parte interna do disco, era o rosto dele, era um projeto bem bonito, bem bonito mesmo...
Infelizmente ele foi exilado e esse disco acabou não saindo.
Mas então o que eu queria dizer do Gita, a relação com essas coisas todas é que... Gil é um bom testemunho disso, porque ele sabe que já em 70, foi a jogada religiosa, a gente estava já saturado de coisas, prisões e tudo mais, estavamos procurando "quelque chose"...

G G - Você está com a Bíblia na prisão. O livro de "Hata Yoga" e a macrobiótica. Foram meus dois livros na prisão.  (risos)

R D - Com isso então o que eu queria dizer é o seguinte, como é que se vê o Krishna nisso. O projeto do Gita, é que eu sempre achei que um tropicalista se tivesse que ter uma religião, no meu caso, não ia ser nem católico, nem protestante, tem que ser um negócio meio... (risos) Acho que naturalmente era a única coisa que podia porque... e só para definir, eu sempre achei que o pensamento de Krishna, ele não é uma filosofia, eu acho que Krishna são todas as filosofias... eu sempre achei que Krishna... eu me lembro... uma coisa que corrobora isso é a citação que Caetano faz de mim no livro, que diz que um dia eu falei para ele assim: "é obvio que Deus não existe, mas a inexistência de Deus é apenas um dos aspectos da existência de Deus" e aí eu vejo no Gita uma coisa igual, é uma afinidade tão natural... Lembro os devotos pregando para mim e eu fumando altos baseados de maconha e eles não estavam nem aí, iam lá para casa, conversavam comigo: "Não adianta suas idéias são iguais às nossas..." (risos) "Então você tem que vir..." E não há nada mais tropicalista do que o Hare Krishna, você veja um movimento que surgiu exatamente na década de 60... Juntamente com os hippies e os Beatles... Era aqui na América, era George Harrison na Inglaterra... que praticamente deram a mídia para o movimento mundial... Prabhupada deu essa volta extraordinária de sair da Índia com 69 anos, fazendo 70 já na viagem... 6 ou 7 dólares no bolso... teve dois ataques do coração, ninguém queria... a dona da companhia dizia: Eu não posso lhe dar essa passagem para os Estados Unidos..."
Aqui não tinha movimento, e eu já era devoto de Krishna... 74, quando o movimento começou no Brasil em 74. Então eu me sinto... 73 para 74... então eu me sinto devoto da primeira geração...

Eu não conheço um Hare Krishna que não tenha fumado um baseado antes de ser Hare Krishna. É porque... e há uma abertura impressionante... nego chama de fanático mas engraçado que não é, eles mantém aquele desbunde, que eles atacam... então eu acho que é a  religião mais ligada ao tropicalismo...

G G - É lúdica, é muito lúdica...

R D - E também dessa tentativa, daquilo que a gente falava ciência-estética, que a tropicália tinha essa preocupação de se compartamentalizar, de misturar o que era menos misturável possível.

"Chiclets eu misturo com banana  e o samba vai ficar assim"...  (risos)

R D - Então, fim de papo.